
Bem oportuna o lembrete de Epicuro,
em dias de esquecimentos de que a vida flui fugazmente:
Dum vivimus vivamus,
Ou “enquanto vivemos, vivamos"!





Nietzsche traduz bem este turbilhão chamado vida. É preciso que se diga: vivemos sempre mordendo a isca. Vivemos sempre mordendo a língua. Nas teias dos significados somos moscas e somos aranhas. Redimensionamos conceitos cristalizados outrora formulados acerca dos outros e de situações vividas. Assistimos, impávidos, a areia escorrer por entre nossos próprios dedos de nossas mãos abertas, enquanto nos maldizemos de todo o tudo. Vão-se os anéis, também os dedos. Viramos as páginas do nosso livro-vida onde dormitarão amareladas nossas amarguras e desapontamentos. Razão, tinham os Beatles: “Let it be!” Mas não queremos fazer os papéis de gladiadores patéticos no centro da arena rodeados de gargalhadas e deboches. Marx, o Karl, no auge da sua lucidez vaticinava: “não é a história que usa o homem como meio de atingir seus fins. É o contrário!” Não vivemos. Não convivemos. Vamos sobrevivendo às contendas definidas nas antevésperas. Todavia, uma vontade contumaz: caminharmos atentos e de queixos firmes; olhos, gigantes faróis; braços que não devem fraquejar. N'algum lugar nasce o sol, n'algum lugar uma ave voa.
Há um besouro incomodando-me e não consigo elucidar seu mistério. Por isso a necessidade de compartir, mesmo a contragosto (meu e seu, sei) o ruído ruim que as asas dele provocam. Em um primeiro momento pensei ser um besouro dialético. Levou-me a concluir que vivemos (não apenas você e eu, mas toda a humanidade, sabemos) sempre entre duas opções: falar e silenciar. Muitas vezes silenciamos quando falamos; assim como, silenciando, falamos. Você, o que ouve quando me ouve, seja na fala, seja no silenciar? Não durou muito tempo, passei a considerá-lo um besouro aristotélico, posto que é da natureza dele o zumbizar e nada mais se pode elucubrar. Entretanto, ele fez habitar em mim um sentimento drummoniano com suspiros de angústia enchendo o espaço: tempus fugit! Foge o tempo irreparável! Nada pode deter o tempo, nem o deus Cronos. Quando achamos que avançamos, foi ele que passou por nós. Restou-me, pois, apenas uma clareza iniludível: tempo vivido. Portanto, o tempo passado? Coisa divina e ao mesmo tempo estarrecedora: somos finitos. O hoje não é como o ontem, e o amanhã é incerto. Tempo. Temporal. Ampulheta irreversível. Mas Amado (o Jorge), há muito já alertava que era preciso viver ardentemente.
A noite cobriu a cidade e nem o néctar da saliva dos seus lábios generosos... e lanço a ducentésima mensagem na garrafa. Perdoe-me por invadir assim, como herege, seu santuário. Certamente, não és estrela. És constelação inteira. E, assim, ofuscante, meu firmamento ficou pleno de vazio. Com medo, contei as voltas do tic-tac nervoso dos ponteiros das minhas horas que marcam a hora em anos luz a espera da aurora, à espera que me olhasses. O seu silêncio atravanca meu peito, sim. Como vês, estou desarmado. Palavras fluem como um caudal espinhoso de rosas que pecaram lá em maio. Sei que detrás do muro não sei o que há. Mas detrás de seu olhar, uma chama chama. O pó que fica do que queima, teima em não dissipar no vento. O relógio tic-tac e nada! No suspiro final do dia, prorrogo a esperança para terça. Contemplo em silêncio, o seu silêncio. Eis que chegou a noite e ela não durará mais que um lapso de um beijo roubado. Mesmo com o coração dilacerado em tiras, acenderei um sol só para você, enquanto contemplo a garrafa que volta à praia.

AMOR:
TODO O MUITO NÃO É O BASTANTE,
NEM ESSA ELOQÜÊNCIA TEATRAL,
NEM A MORBIDEZ DESSE INSTANTE.
TOMASTES DE ASSALTO O MEU CÉU,
LEVANDO EMBORA AS ÚLTIMAS ESTRELAS QUE EU TINHA,
E EU FIQUEI A VER NAVIOS.
Simão de Miranda, Versículos para os Intervalor, Brasília, 1987.








Prefiro vocêSimão de Miranda
A essa noite insone
Ao telefone.
Prefiro você
A esse sorriso abstrato
Do retrato.
Prefiro você
A esse
pensamento fixo,
prolixo.
Prefiro você:
Presente desembrulhado
Ao meu lado.

Teus olhos feéricos
Nada precisam dizer,
Apenas sorria.
Sorria
apenas
e aproxime-te de mim .
E toca meu rosto tenso
E vê.
E
vem.
Simão de Miranda